A história da música ocidental foi, durante séculos, escrita quase exclusivamente por mãos masculinas, não porque as mulheres não possuíssem talento ou vocação criativa, mas porque as estruturas sociais, religiosas e familiares lhes vedavam, de um modo geral, o acesso à formação, à publicação e ao reconhecimento público da sua obra. O programa que se apresenta, intitulado "Da Sombra para a Luz", propõe-se percorrer este longo trajecto de afirmação, em três partes que correspondem, respectivamente, a três momentos distintos dessa caminhada. Na primeira parte, "Entre Paredes", ouvem-se peças a cappella de Raffaella e Vittoria Aleotti, duas irmãs, ou talvez a mesma pessoa. A segunda parte, "Na Sombra", dá voz a Clara Schumann e a Fanny Hensel, duas figuras centrais do romantismo alemão cuja obra foi, em larga medida, ofuscada pela proximidade de homens notáveis. Na terceira parte, "Na Luz", o programa conduz-nos à modernidade, período em que as compositoras passam, de forma progressiva, a poder assumir, com maior liberdade e legitimidade, a autoria e a direcção da sua carreira artística. Marion Bauer e Lili Boulanger representam esta afirmação plena. A jovem compositora portuguesa Sara Ross encerra este percurso, trazendo-o até à contemporaneidade, num testemunho de que a luz conquistada continua, hoje, a expandir-se.