Irmã Água
Humilde, preciosa e casta
Irmã Água
Humilde, preciosa e casta
Recital de Canto e Arquialaúde por António Lourenço Menezes e Vicente Morgado
29 Out’26 / 12h40
Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, Lisboa
Entrada livre
iniciativa Égide
curadoria Maestro Nuno Miguel de Almeida
A água como instrumento de transformação
A água está presente na Bíblia e na liturgia como uma das suas imagens mais persistentes. Está no princípio da criação, nos gestos de purificação, na promessa da água viva e no gesto de lavar. É matéria, passagem, renovação e vida.
É a partir deste universo de imagens que se constrói este recital, inspirado na invocação de São Francisco de Assis à «irmã água». O programa não procura ilustrar literalmente cada uma delas, mas percorrer diferentes formas através das quais a água se torna imagem de transformação.
A convocação abre o percurso. Currite, populi, psallite timpanis — «Correi, povos; tocai os tímpanos» — coloca-nos em movimento: a voz convoca, reúne e celebra.
Segue-se a criação e o louvor. A imagem das águas sobre as quais paira o Espírito, no Génesis, conduz ao Laudate Dominum in sanctis eius, de Monteverdi, onde toda a criação é chamada ao louvor: «Omnis spiritus laudet Dominum» — «Que todo o ser que vive louve o Senhor». A água surge aqui como princípio de vida e a criação responde através do louvor.
Depois do movimento e da expansão do louvor, segue-se o recolhimento. O arquialaúde cria um espaço de suspensão e escuta, transformando o gesto exterior em atenção interior. É um momento de pausa, admiração, e de escuta antes de prosseguir o percurso.
A purificação está aqui desenvolvida a partir de um dos textos do Miserere. Em Amplius lava me — «Lava-me mais e mais» —, a água torna-se pedido de renovação. O que se lava não é apenas o corpo, mas a própria pessoa, que procura ser transformada.
E no tema da sede e a água viva este percurso encontra o seu centro. Venite qui esuritis — «Vinde, vós que tendes fome» — coloca-nos diante de uma sede simultaneamente corporal e espiritual. A linguagem do texto aproxima alimento, bebida e fonte, até chegar ao desejo de ter sede de Cristo como fonte da vida. A água torna-se, assim, aquilo que se procura porque dela depende a vida.
O percurso termina na água simbolizando entrega. Em Adorate Iesu care, de Isabella Leonarda, o desejo dirige-se inteiramente para Cristo. O coração, antes dividido entre Deus e o mundo, procura uma direção única. A imagem da água regressa através do gesto de lavar e servir: aquilo que transforma é também aquilo que nos conduz para fora de nós mesmos.
Para este concerto, a escolha do repertório reúne quatro compositores do século XVII e duas compositoras — Chiara Margherita Cozzolani e Isabella Leonarda —, duas mulheres que fizeram da vida religiosa o espaço da sua criação musical. Cozzolani, beneditina do convento de Santa Radegonda, em Milão, e Leonarda, religiosa do Collegio di Sant’Orsola, em Novara, desenvolveram aí grande parte da sua actividade artística, escrevendo música profundamente ligada à vida espiritual e comunitária. As suas vozes, nascidas de experiências religiosas distintas mas igualmente marcadas pela escuta, pela oração e pela vida em comunidade, ganham neste programa uma particular ressonância. No centro encontra-se Venite qui esuritis, de Cozzolani, onde a imagem da sede, da fonte e da vida encontra a sua expressão mais desenvolvida
Mais do que contar uma história sobre a água, o recital procura deixá-la correr através da música, como imagem de uma transformação que começa no exterior e se torna, progressivamente, interior.
- António Lourenço Menezes
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PROGRAMA
O programa desenvolve-se em seis momentos, concebidos a partir do tema «Irmã Água», quarta invocação do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis.
Partindo da presença da água nas imagens bíblicas e litúrgicas — como princípio da criação, sinal de purificação, fonte de vida e expressão de entrega — o recital constrói um percurso musical em que a água se torna uma imagem de transformação interior.
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MOMENTO I — A CONVOCAÇÃO
“Venham! Cantemos ao Senhor com alegria; aclamemos o nosso protetor e salvador.”
Sl 95, 1–2
Claudio Monteverdi (1567–1643)
Currite, populi, psallite timpanis, SV 297
ca. 4 min
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MOMENTO II — A CRIAÇÃO / O LOUVOR
“Sobre as águas pairava o Espírito de Deus.”
Gn 1, 2
Claudio Monteverdi (1567–1643)
Laudate Dominum in sanctis eius, SV 287
ca. 4 min
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MOMENTO III — O RECOLHIMENTO
“Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.”
Sl 46, 10
Arquialaúde solo
Prelúdio
ca. 2 min
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MOMENTO IV — A PURIFICAÇÃO
“Farei com que, por meio de água limpa, fiquem ritualmente puros.”
Ez 36, 25
Michel-Richard de Lalande (1657–1726)
Amplius lava me, S. 87
ca. 2:30 min
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MOMENTO V — A SEDE / A ÁGUA VIVA
“Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede.”
Jo 4, 14
Chiara Margherita Cozzolani (1602–c. 1677)
Venite qui esuritis
≥ 7 min
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MOMENTO VI — A ENTREGA
“Se Eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.”
Jo 13, 14
Isabella Leonarda (1620–1704)
Adorate Iesu care, Op. VI
≥ 5 min
António Lourenço Menezes,
direção artística e contratenor
Vicento Morgado,
Arquialaúde
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Apresentam-se nesta nova colaboração dedicada ao repertório vocal dos séculos XVII e XVIII para voz e cordas dedilhadas históricas. Com percursos distintos e complementares, desenvolvem atividade regular no âmbito da música antiga e da interpretação historicamente informada. Contratenor, maestro e diretor artístico, António Lourenço Menezes apresenta-se em concerto, oratório e ópera, colaborando com formações como a Orquestra Barroca d’Aquém-Mar, o Ludovice Ensemble e o Ensemble Bonne Corde. Desenvolve também projetos de criação multidisciplinar e foi distinguido com o 2.º Prémio José Augusto Alegria, entre outros. Vicente Morgado, arquialaudista e guitarrista barroco, conta com formação na Schola CantorumBasiliensis e no Conservatorio di Musica di Santa Cecilia, apresentando-se a solo e em música de câmara em Portugal e no estrangeiro. Foi distinguido em concursos de música de câmara e no Prémio Jovens Músicos. Ambos são presenças regulares em festivais nacionais de música erudita, aproximando diferentes gerações através de uma abordagem historicamente informada.

