Transtempo | Concerto

Ecos de Viena

entre Haydn, Mozart e Beethoven

4 JUL‘26 / 19h
Convento de São Pedro de Alcântara

iniciativa Égide

Prosseguindo o ciclo dedicado ao Tempo, a Égide propõe um concerto que se centra num dos agrupamentos mais representativos do Classicismo — o quarteto de cordas. Com o declínio do absolutismo e a crescente afirmação da burguesia, os salões privados ganham protagonismo como espaços de fruição artística, proporcionando o florescimento de um vasto repertório para esta formação. Com o Quarteto Tágide, propomos aprofundar o Quarteto de Cordas no Classicismo e a sua importância na primeira escola de Viena, constituída por Haydn, Mozart e Beethoven. Apresentam-se três obras que, apesar da relativa proximidade cronológica, evidenciam a riqueza e evolução do género do Quarteto ao longo destes anos.

O Quarteto em Sol maior, Op. 77 n.o 1, de Joseph Haydn, composto em 1799, pertence ao último conjunto de quartetos do compositor e revela plenamente a sua maturidade artística. A obra, caracterizada por clareza formal, fluidez temática e ambiente elegante e transparente, evidencia o equilíbrio e diálogo entre as linhas. O primeiro andamento afirma um carácter luminoso e enérgico; o Adagio oferece um espaço mais contido e cantabile; o Menuetto retoma um espírito dançante, elegante e subtil; e o Finale encerra a obra com leveza e vivacidade. Ao longo de todo o quarteto reconhece-se o lado mais jocoso e luminoso da linguagem de Haydn, sempre sustentado por uma construção formal muito sólida.

Já o Quarteto de Cordas n.º 19 em Dó maior, conhecido como “Dissonâncias”, integra o conjunto de seis quartetos que Wolfgang Amadeus Mozart dedicou a Joseph Haydn. A obra distingue-se desde o início pela introdução lenta do primeiro andamento (Adagio), marcada por uma escrita harmonicamente ousada, com dissonâncias sucessivas e ambiguidade tonal pouco habitual no contexto do classicismo vienense, que dá nome ao quarteto. Este ambiente contrasta com o Allegro que se segue, mais luminoso e estruturado, revelando o permanente equilíbrio entre tensão e clareza formal que caracteriza a primeira escola de Viena. O segundo andamento (Andante cantabile), por sua vez, apresenta um carácter mais íntimo e lírico, construído sobre uma melodia expressiva e cantabile. “Dissonâncias” é um quarteto de contrastes entre os dois andamentos que apresentaremos, na vivacidade inicial do Allegro e serenidade do Andante, evidenciando a profundidade estilística da obra, reflexo das obras tardias de Mozart.

Em contraste, o Quarteto em Fá menor, Op. 95, de Ludwig van Beethoven, composto em 1810 e intitulado pelo próprio “Serioso”, apresenta uma escrita mais concentrada, tensa e contrastante. Situada no final do segundo período criativo do compositor, esta obra antecipa já uma mudança de linguagem, apontando para uma maior fragmentação formal e para uma intensidade expressiva mais marcada. O primeiro andamento é denso e dramático; o segundo, mais contido, mantém uma atmosfera de inquietação; o Scherzo é incisivo e abrupto; e o Finale, apesar do percurso marcado por tensão e conflito, culmina numa coda surpreendentemente luminosa, em modo maior, frequentemente associada à ideia de superação.

Com este programa, procuramos assim colocar em diálogo duas obras, unidas pela continuidade estilística do (ainda) Classicismo: por um lado, o ideal de equilíbrio formal, transparência e elegância textural que encontramos em Haydn; por outro, uma linguagem mais expressiva, contrastante e intensa, onde Beethoven antecipa o Romantismo. O quarteto surge, deste modo, não apenas como uma formação central do Classicismo, mas como um espaço privilegiado de transformação estética, onde se tornam visíveis as mudanças de sensibilidade musical no início do século XIX.


PROGRAMA

Joseph Haydn
Quarteto de Cordas em Sol maior, Op. 77 n.º 1
I. Allegro moderato

Wolfgang Amadeus Mozart
Quarteto de Cordas n.º 19 em Dó maior, K. 465 “Dissonâncias”
I. Adagio – Allegro
II. Andante cantabile

Ludwig van Beethoven
Quarteto de Cordas em Fá menor, Op. 95 “Serioso”
I. Allegro con brio
II. Allegretto ma non troppo
III. Allegro assai vivace ma serioso
IV. Larghetto espressivo – Allegretto agitato


  • O Quarteto Tágide formou-se em 2022, em Lisboa, sendo constituído por Vicente Sobral e Ana Sofia Faria, violinos; Raquel Agostinho, viola; e Inérzio Macome, violoncelo. 

    Desde a sua formação, tem sido orientado por Irene Lima, tendo tido oportunidade de contactar com outros mentores, como Andrew Atkinson, Catherine Strynckx, Evan Rothstein, Levon Mouradian, Meagan Milatz, Mihai Cochea, Oyvor Volle, Paul Wakabayashi, Samuel Barsegian, Tiago Neto e Varoujan Bartikian, bem como pelo o Sonoro Quartet, rising star da European Concert Hall Organisation (ECHO).  

    Procura explorar a riqueza do repertório nacional e internacional existente para quarteto de cordas, bem como aproximar o trabalho em Música de Câmara do público mais jovem, tendo já partilhado o seu testemunho com os alunos do Instituto Gregoriano de Lisboa e da Academia de Música de Santa Cecília. Para além da sua atividade em formação de quarteto, o grupo desenvolveu projetos em colaboração com outros intérpretes, como formação de quinteto com Irene Lima (violoncelo) e em colaboração com a Soprano Cecília Rodrigues.

    Tem-se apresentado em vários palcos em Portugal, com destaque para performances na Fundação Calouste Gulbenkian, Casa da Música, Festival Estoril Lisboa, Cistermúsica, Ciclo de Concertos na Casa Oliveira Guimarães, Lisbon Music Fest, MusicEd ESML-IPL, e em representação da Orquestra Sem Fronteiras. Integrou, em 2024, a Temporada de Concertos Antena 2 / Ciclo PortugalSom, em parceria com a Direção Geral das Artes e a ESML. Foi membro da Artway Showcase em 2025.

    Em 2024, foi premiado no I Concurso Nacional Cidade do Montijo de Música de Câmara e recebeu o 1.º prémio na categoria de Música de Câmara, Nível Superior, na 37.ª edição do Prémio Jovens Músicos. Com o apoio do PJM e da GDA, irá lançar o seu primeiro disco em setembro de 2026, com gravação do quarteto de Ravel e de Joly Braga Santos.

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