Habitar o tempo
Concerto | A tempo

Canções Heróicas

Fernando Lopes-Graça

24 ABR‘26 / 21h / Apr 24th’26 / 9pm
Convento de São Pedro de Alcântara

São Pedro de Alcântara Convent

iniciativa / initiative Égide

Num ciclo dedicado ao tempo, revisitar obras associadas a um período histórico específico implica um duplo gesto: recuperar a memória — continuamente repensada e vivida — e olhar o presente com outro olhar. Ao interpretar hoje as Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça, fazemos coexistir estes dois tempos, que ultimamente parecem estar cada vez mais próximos. Permitir que estas canções perdurem e nos toquem é, ainda hoje, um ato artístico e um ato de resistência.

As Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça constituem um dos ciclos mais emblemáticos da música portuguesa do século XX, nascido entre as décadas de 1940 e o pós-25 de Abril, em estreita ligação com poetas da resistência cultural. Esclarece-nos o próprio Graça que estas canções podem ser interpretadas por uma só voz ou por coro, a duas ou mais vozes, com ou sem acompanhamento de piano — uma liberdade de realização que faz parte do seu próprio conceito genético. Mais do que simples peças vocais, as Heróicas transformam a palavra poética em gesto musical intenso, onde convivem denúncia e esperança, combate e ternura, indignação e sonho. Escritas em pleno regime ditatorial, muitas destas canções circularam de forma clandestina e eram explicitamente proibidas pelas autoridades, tornando-se símbolo de resistência artística e moral. Lopes-Graça criou assim uma linguagem profundamente portuguesa, moderna e humanista, que deu voz à aspiração coletiva por liberdade, dignidade e justiça. Interpretá-las hoje é revisitar uma memória histórica e, ao mesmo tempo, afirmar a atualidade de uma música que continua a interpelar consciências, particularmente em tempos em que os valores de liberdade e dignidade humanas voltam a ser postos à prova.


Coro Ricercare
Direção: Pedro Teixeira
Piano: Nuno Margarido Lopes


PROGRAMA
Livro I

Acordai | José Gomes Ferreira;
Jornada | José Gomes Ferreira;
Mãe pobre | Carlos de Oliveira;
Convite | Antunes da Silva;
Crucifixo | Afonso Duarte;
Firmeza | João José Cochofel;
Cantemos o Novo dia | Luisa Irene;
Combate | Joaquim Namorado;
Ronda | João José Cochofel;
Livre | Carlos de Oliveira;
Canto de esperança | Mário Dionísio;
Canto de Paz | Carlos de Oliveira.

Livro II

Canto do livre | Soares de Passos;
Clamor | José Ferreira Monte;
Canção alegre | Edmundo Bettencourt;
Ó pastor que choras | José Gomes Ferreira;
Requiem | António Reis;
Romaria | João José Cochofel;
Canção de Catarina | Papiniano Carlos;
As papoilas | José Gomes Ferreira;
Canção do camponês | Arquimedes da Silva Santos;
Quando a alegria for de todos | André Varga;
Canção de Maio | Joaquim Namorado;
Não te deites, coração | Edmundo Bettencourt;
Hino ao Homem | Armindo Rodrigues

  • Fundado em 1996 pelos maestros Carlos Caires e Paulo Lourenço, o Coro Ricercare é dirigido desde 2001 por Pedro Teixeira. Ao longo do seu percurso, afirmou-se como um dos coros portugueses de referência, distinguindo-se pela qualidade vocal, homogeneidade sonora e rigor interpretativo. O Coro Ricercare integra a Associação Musical Ricercare, que inclui também a Sinfonieta de Lisboa, orquestra da instituição. Mantém uma colaboração artística regular com a Sinfonieta, sob a direção de Vasco Pearce de Azevedo, desenvolvendo projetos no domínio sinfónico-coral e na criação contemporânea. O coro integra maioritariamente jovens músicos provenientes de instituições como a Escola Superior de Música de Lisboa, o Instituto Gregoriano de Lisboa e a Escola de Música do Conservatório Nacional, entre outras. A procura constante de excelência artística tem orientado a sua atividade desde a fundação. Entre 2006 e 2018, a Ricercare organizou o certame anual “Jovens Compositores Portugueses”, no qual estreou, em primeira audição absoluta, mais de 80 obras para coro a cappella e para coro e orquestra, muitas delas em colaboração com a Sinfonieta de Lisboa. Esta iniciativa afirmou-se como um dos mais relevantes projetos de incentivo à criação coral contemporânea em Portugal. No plano artístico, mantém colaborações regulares com criadores e intérpretes portugueses de referência. Destaca-se a parceria continuada com o compositor e maestro Nuno Côrte-Real, realizando numerosos concertos sob a sua direção com o Ensemble Darcos e participando em várias gravações discográficas dedicadas à sua música. Com o pianista e compositor Daniel Bernardes, desenvolve igualmente uma colaboração consistente, tendo gravado dois CD’s e apresentado diversos concertos conjuntos. Desde 2019, é coro residente do Festival Internacional de Música de Marvão, onde tem realizado múltiplos concertos ao longo das sucessivas edições. Integra também, como coro base, o Marvão Festival Chorus, projeto coral anual do festival que reúne dezenas de coralistas de todo o país numa residência artística intensiva, culminando num concerto integrado na programação oficial. Tem colaborado regularmente com o Coro Casa da Música em grandes produções sinfónico-corais, incluindo o Credo de Arvo Pärt, o Gloria de Verdi e Das klagende Lied de Mahler.  

    No domínio sinfónico-coral, apresentou obras como o Requiem de Mozart, a Messa di Gloria de Puccini, o Requiem de Fauré, a Missa Nelson de Haydn, In Paradisum e o Requiem à memória de Passos Manuel de Eurico Carrapatoso, atuando com a Sinfonieta de Lisboa, a Orquestra do Algarve e outros agrupamentos nacionais. Tem presença regular em importantes festivais e temporadas nacionais e internacionais, destacando-se Marvão, Setúbal, Cistermúsica (Alcobaça), São Roque e Dias da Música (CCB). Em 2021 encerrou o festival e concurso internacional de composição Musica Sacra Nova, em Brauweiler (Alemanha), estreando as três obras vencedoras. Na discografia, destaca-se a gravação do Te Deum (1769) de João de Sousa Carvalho (RCA/DHM), projetos dedicados à música contemporânea portuguesa, um CD dedicado a Fernando Lopes-Graça (Antena 2), as gravações com Nuno Côrte-Real e Ensemble Darcos e os dois registos discográficos realizados com Daniel Bernardes. Foi distinguido com o 2.º Prémio no II Certamen Internacional de Corales Polifónicas Ciudad de Sevilla (1998) e com o 1.º Prémio no Certamen Internacional de Villancicos (Madrid, 1999). 

  • Pedro Teixeira nasceu em Lisboa. É mestre em Direção Coral pela Escola Superior de Música de Lisboa, onde é professor desde 2017, lecionando igualmente na Escola Superior de Educação de Lisboa.
    Tem desenvolvido uma intensa atividade como maestro, com reconhecimento contnuado em Portugal desde 1997 e projeção internacional consolidada a partir da sua nomeação como maestro titular do Coro de la Comunidad de Madrid. Iniciou a sua atividade como diretor do Coro Polifónico Eborae Musica, que dirigiu entre 1997 e 2013, e foi maestro titular do Grupo Coral de Queluz entre 2000 e 2012. Entre 2012 e 2018 foi maestro titular do Coro de la Comunidad de Madrid, dirigindo concertos regulares na Sala de Câmara do Auditorio Nacional de Música de Madrid. Desde janeiro de 2022 é maestro adjunto do Coro Casa da Música, e tem dirigido, desde 2018, o Coro Gulbenkian em diversas produções e concertos em palcos como o Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, o Festival de Música Antiga de Úbeda y Baeza e a Fundación Juan March, em Madrid.
    Reconhecido pela clareza gestual e pela atenção à qualidade tímbrica, à pureza de emissão vocal e à escuta interna dos conjuntos que dirige, Pedro Teixeira é frequentemente convidado a preparar coros profissionais em colaboração com maestros como Riccardo Muti, John Nelson, Esa-Pekka Salonen, Joana Carneiro, Paul McCreesh, Víctor Pablo Pérez, Lorenzo Viotti e Laurence Foster. Desta atividade destacam-se produções como A Criação de Haydn e o War Requiem de Britten no Auditorio Nacional de Música de Madrid, Falstaff de Verdi na Fundação Gulbenkian e o Requiem de Verdi no Teatro Real de Madrid.
    Em paralelo, mantém desde 2001 uma atividade continuada na investigação e interpretação da música antiga. Nesse ano fundou o Officium Ensemble, grupo profissional dedicado à polifonia portuguesa dos séculos XVI e XVII, com o qual se apresenta regularmente em alguns dos mais reconhecidos festivais europeus de música antiga, nomeadamente Laus Polyphoniae (Antuérpia), Festival Oude Muziek (Utrecht), FIAS Madrid e Festival de Música Antiga de Úbeda y Baeza. Nos últimos anos, o Officium Ensemble tem desenvolvido um consistente trabalho de gravação, incluindo primeiras gravações modernas de repertório de Estêvão Lopes Morago e de Estêvão de Brito, com o apoio da Égide – Associação Portuguesa das Artes.
    Desde janeiro de 2024 é diretor artístico do ensemble Cupertinos, formação dedicada exclusivamente ao repertório renascentista português, com o qual gravou nesse mesmo ano um CD com gravações inéditas de Estêvão Lopes Morago, a ser lançado em breve pela editora Hyperion.
    No domínio da criação contemporânea, dirige desde 2001 o Coro Ricercare, com o qual apresenta regularmente primeiras audições absolutas de obras de compositores portugueses e estrangeiros. Tem dirigido o Coro Ricercare em diversas edições do Festival Internacional de Música de Marvão, onde é também maestro titular do Marvão Festival Chorus.
    Paralelamente à direção, desenvolve atividade como cantor, tendo atuado em grande parte da Europa, nos Estados Unidos, América do Sul e África, integrando formações como o Coro Gulbenkian, A Cappella Portuguesa (Owen Rees) e o Coro Gregoriano de Lisboa, onde é também solista.
    É diretor artístico das Jornadas Internacionais Escola de Música da Sé de Évora desde 1997, orienta regularmente cursos e workshops internacionais de música coral e antiga, e é frequentemente convidado para integrar júris de concursos corais na Europa e na Ásia. Para além de dirigir coros profissionais nacionais como o Coro Casa da Música  e o Coro Gulbenkian, mantém uma atividade regular como maestro convidado a nível internacional.

  • Nasceu em 1975 em Vila Franca de Xira.
    Estudou piano com Alexei Eremine e composição com Evgueni Zoudilkin.
    Tem colaborado frequentemente com diversas orquestras tais como a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, Orquestra Metropolitana , Sintra Estudio de Opera, Camerata Vianna da Mota e Camerata Atlântica, assim como com o Coro Lisboa Cantat, Coro da Universidade Nova de Lisboa, Coro Capela Nova, Coro D. Luiz, Coral de São José e Coro Ricercare.
    Em 1997 iniciou a sua colaboração com o Teatro Nacional de São Carlos, onde se fixou e exerce actualmente as funções pianista na Orquestra Sinfónica Portuguesa, de maestro correpetidor e assistente do maestro João Paulo Santos.

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