Habitar o Tempo
Contratempo
A Arte da Música
Tiago Simas, tenor, Filipe Gaio Pereira, piano
Alice Neto de Sousa, declamação
introdução por Jorge Fazenda Lourenço
23 Out’26 | 21h
Convento de São Pedro de Alcântara
iniciativa Égide
“Sempre a poesia de Jorge de Sena é desafio, mas nunca o foi tão abertamente como em Arte de Música, onde a si mesmo se desafia”, escreve Eduardo Lourenço. No âmbito do subciclo Contratempo, este concerto presta homenagem à poesia de Jorge de Sena, cruzando-a com a música que nela é diretamente evocada em Arte de Música.
Para este momento, convidamos Jorge Fazenda Lourenço para uma breve introdução ao universo estético do autor; Alice Neto de Sousa para a leitura de excertos selecionados; e Tiago Simas (tenor) e Filipe Gaio Pereira (piano) para a interpretação musical, criando um espaço de escuta e de reflexão em que música e palavra se convocam mutuamente.
O programa explora a dimensão mais íntima do lied em Schubert e Schumann, sendo complementado por dois momentos solísticos para piano — de Debussy, que inaugura o concerto, e Mozart — todos eles acompanhados por poesia de Sena, que precisamente sobre essas obras tece o seu próprio discurso poético.
Retomando Eduardo Lourenço, que, a propósito do poema de Sena dedicado a Debussy, escreve: “Deste único e neste único poema se refracta o essencial da visão de Jorge de Sena, o buraco ou a ferida sem fundo que nela a poesia tapa ou alarga, mas essencialmente a essência da sua poética. Toda a ambivalência da relação entre música e poesia se explicita neste poema confissão, voz do submerso em nós (…)”.
Partindo desta ideia de que a poesia nos traz e nos revela o mais sem fundo que há em nós, deixemo-nos hoje mergulhar nestas obras poéticas — e na poética posta em música.
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M/3
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PROGRAMA
"La Cathédrale Egloutie", de Debussy
Prelúdios – Livro I, CD 125: X. La Cathédrale Égloutie – C. Debussy
Canções de Schubert sobre textos de Wilhelm Müller
Winterreise: I. Gute Nacht – F. Schubert
Winterreise: II. Die Wetterfahne – F. Schubert
Die Schöne Müllerin: II. Wohin? – F. Schubert
Die Schöne Müllerin: III. Halt! – F. Schubert
Winterreise: VIII. Rückblick – F. Schubert
Winterreise: XXIII. Der Nebensonnen – F. Schubert
Fantasias de Mozart, para tecla
Fantasia No. 3 em Ré Menor, K. 397 – W. A. Mozart
Ouvindo poemas de Heine como "Lieder" de Schumman
Dichterliebe: I. Im wunderschönen monat mai – R. Schumman
Liederkreis, Op. 24: I. Morgens steh’ ich auf – R. Schumman
Dichterliebe: IV. Wenn ich in deine Augen seh’ – R. Schumman
Vier Gesänge, Op. 127: III. Es leuchtet meine Liebe – R. Schumann
Dichterliebe: VIII. Und wüssten’s die Blumen, die kleinen – R. Schumann
Vier Gesänge, Op. 142: V. Mein Wagen rollet langsam – R. Schumann
Myrthen, Op. 25: XXII. Du bist wie eine Blume – R. Schumann
Liederkreis, Op. 24: IX. Mit Myrthen und Rosen – R. Schumann
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Tiago Simas iniciou os seus estudos de música na Escola Luís António Maldonado Rodrigues, em Torres Vedras, onde estudou Canto com Susana Duarte.
Concluiu o Curso Secundário de Canto Gregoriano no Instituto Gregoriano de Lisboa, na classe de Elsa Cortez.
Em 2020, iniciou um percurso simultâneo como estudante de Canto e de Composição na Escola Superior de Música de Lisboa. Em 2023, licenciou-se em Canto nesta instituição, enquanto aluno de Armando Possante, e estudou com Noa Frenkel, em intercâmbio com o Real Conservatório de Haia. Em 2025, terminou a Licenciatura em Composição, no âmbito da qual estudou com João Madureira, Sérgio Azevedo, Carlos Caires e Luís Tinoco. Atualmente, frequenta em simultâneo os ramos de Canto e Composição do Mestrado em Ensino da Música.
Também por se dedicar a estas duas áreas, contacta constantemente com música de variadas estéticas e períodos históricos, procurando muitas vezes nesta relação uma aproximação multidisciplinar. O conhecimento dos diversos estilos e maneirismos musicais tem-lhe permitido executar, enquanto cantor solista, um repertório muito diversificado, que integra desde a música antiga à contemporânea.
Enquanto compositor, procura um discurso expressivo claro, à base da exploração de objetos sonoros transversais a diversas linguagens, na consciência da ligação intrínseca entre a arte do passado e do presente enquanto aspirantes ao mesmo diálogo.
Em 2024, foi um dos convidados a integrar o programa Jovens Compositores nos Estúdios Victor Córdon. Da sua produção mais recente, destaca-se a obra Balada Longínqua, composta para viola de arco por encomenda da Antena 2 / RTP, para integrar o repertório do Prémio Jovens Músicos 2025.
Como cantor, integrou projetos e masterclasses sob a orientação de Michael Chance, Bernarda Fink, Simon Bode, Aphrodite Patoulidou e Julius Drake. Tem trabalhado com vários grupos que contribuem de forma ativa para o panorama musical português, como o Grupo Vocal Olisipo, o Ensemble 258, o grupo Ars Lusitana, o Ensemble Mpmp e o Officium Ensemble, tendo já participado em várias estreias modernas de obras antigas recém-editadas, tal como em várias estreias mundiais de obras contemporâneas.
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O pianista português Filipe Gaio Pereira concluiu a Licenciatura e o Mestrado em Piano na Escola Superior de Música de Lisboa, onde estudou com o Professor Miguel Henriques.
Posteriormente, obteve um segundo Mestrado em Interpretação de Música Clássica e Contemporânea na Escola Superior de Música da Catalunha, em Barcelona, sob a orientação de Denis Lossev, diplomando-se com distinção em ambas as instituições.
Aprofundou o seu percurso musical através de masterclasses e sessões de aperfeiçoamento com músicos como Jorge Moyano, Jeffrey Swan, Inês Andrade, Paulo Pacheco, Henri Sigfridsson, Eldar Nebolsin e Milana Chernyavska, bem como na área do Lied com artistas como Lisette Oropesa, Sabine Devieilhe, Anthony Roth Costanzo, Bryan Wagorn e Javier Arrebola.
A sua atividade artística desenvolve-se tanto a solo como, sobretudo, no domínio da música de câmara, com especial enfoque no repertório para voz e piano. Entre as apresentações de destaque contam-se a interpretação do Concerto para Piano n.º 23 de Mozart com a Orquestra Sinfónica da ESML, várias transmissões em direto para a Antena 2, a interpretação do Quatuor pour la fin du temps, de Olivier Messiaen, a abertura da primeira edição do Festival Liedfest no Teatro Variedades, um recital na Queen Elisabeth Music Chapel (Bélgica), um concerto no AMARE (Haia), bem como a estreia de obras de Nicholas McNair e Eva Aguilar.
Selecionado como pianista para o Song Studio 2026, prestigiado programa intensivo de formação e performance em repertório de voz e piano no Carnegie Hall, em Nova Iorque, Filipe colaborou com músicos de renome internacional, participou em masterclasses especializadas e apresentou-se em diversos eventos organizados pela instituição, reforçando o seu perfil internacional.
Na temporada 2026–2027, Filipe acompanhará a soprano Camila Mandillo numa digressão europeia, integrada no programa ECHO Rising Stars, apresentando-se em salas de renome, entre as quais a Fundação Calouste Gulbenkian, Bozar Brussels, Konserthuset Stockholm, Müpa Budapest, Wiener Konzerthaus, Elbphilharmonie Hamburg e Concertgebouw Amsterdam.
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Alice Neto de Sousa (1993) é poeta, escritora, letrista e dizedora de poesia, nascida em Portugal, com raízes em Angola.
Licenciada e mestre em Reabilitação Psicomotora, frequenta atualmente uma pós-graduação em Práticas Artísticas e Inclusão Social.
Foi poeta convidada para a abertura solene das comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril, onde apresentou o poema inédito “Março”, cujo manuscrito foi depositado na cápsula do tempo a ser aberta em 2074.
Autora de poemas publicados em antologias em Portugal e no Brasil, escreveu para o jornal Mensagem de Lisboa. Destacou-se no Brasil com o poema “Terra”, que deu nome à coletânea Do que ainda nos sobra da guerra (Editora Ipêamarelo, 2021). Em 2022, o seu poema “Poeta” alcançou ampla circulação nas redes sociais, tendo sido nesse mesmo ano distinguida pela Bantumen como uma das 100 personalidades mais influentes da lusofonia.
Entre 2021 e 2023, foi presença assídua no programa Bem-Vindos (RTP África) e, em 2024, poeta em residência na Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2025, criou a instalação “Cardápio Poético”, com escrita de poemas à máquina de escrever, e traduziu o livro Pouco a Pouco, de Amanda Gorman (Orfeu Negro).
Tem desenvolvido uma prática regular em festivais literários, escolas, bibliotecas e instituições culturais, em Portugal e internacionalmente.
A sua prática artística centra-se na palavra dita, na escuta e na presença, explorando a dimensão performativa da poesia em diálogo com questões sociais contemporâneas.
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